10 anos do Partido Libertário: um ano de incertezas
Vou resumir o que aconteceu no encontro/congresso do Partido Libertário, realizado no dia 21 de fevereiro em Oeiras.
Chamo-lhe “encontro” em vez de Congresso porque, ao contrário dos outros partidos — onde tudo é controlado e fechado —, este foi aberto ao público, gratuito e permitiu que qualquer participante expressasse livremente a sua opinião sobre o movimento e as acções do partido. Se não fosse assim, eu nem poderia comentar aqui, uma vez que não faço parte da associação que gere o movimento.
Os 10 anos do Partido
Este ano deveríamos estar a assinalar os 10 anos do início do projeto que trouxe o libertarianismo para Portugal de forma mais visível. Desde o princípio, o objectivo foi sempre criar um partido — daí o nome “Partido Libertário” ter surgido logo. No entanto, não há motivo para comemorações. Quem iniciou o projecto acabou por o travar (ou quase destruir). Só não terminou tudo graças à acção corajosa de alguns associados, que confrontaram os fundadores e os seus aliados. Após 9 anos praticamente sem avanços, os libertários tiveram de recomeçar do zero.
Um ano de incerteza
O encontro teve um bom ambiente e reuniu mais participantes do que em 2019 (mais de 50 pessoas, contra 47). Isso foi positivo.
Mas o balanço geral deixou muito a desejar, apesar de algumas notas encorajadoras. A dúvida sobre o rumo surgiu logo desde o início: estavam presentes algumas pessoas do “passado” (embora poucas), que interferiram de forma questionável junto de quem queria dar uma nova direção ao movimento.
O progresso do último ano ficou bem aquém do que os novos responsáveis prometeram. Na comunicação houve melhorias notáveis — mais parcerias com influencers libertários e mais vozes activas —, mas o objectivo principal falhou por completo: as assinaturas para registar o partido.
Desde 2016 que se fala nisso. Neste último ano, conseguiram apenas algumas centenas (cerca de uma assinatura por dia, em média). É o mesmo padrão de sempre: todos os anos o objectivo central é recolher as assinaturas necessárias, e todos os anos falha, com as mesmas justificações (contratempos, métodos inadequados, falta de envolvimento, condições difíceis…). A maior incerteza centra-se precisamente aí.
Outra preocupação é o perfil dos participantes: a maioria identifica-se como anarco-capitalista, mas também havia bastantes libertários de direita, de cariz conservador e minarquista. Em 2019 estes grupos também estavam presentes, mas este ano faltou um grupo relevante: os objetivistas. Convém perceber as razões desse afastamento.
Além disso, será a mensagem actual a mais adequada? No encontro apareceram pessoas que não se consideram libertárias, mas sentem-se politicamente “órfãs” desde que a Iniciativa Liberal abandonou o liberalismo clássico como base programática. Algumas limitaram-se ao almoço e depois saíram; outras ficaram na reunião apenas como ouvintes. Parece-me mais sensato aproveitar esta oportunidade: o Partido Libertário devia tentar atrair esse eleitorado descontentes, sem renunciar aos princípios radicais (imposto é roubo, fim do estado, Privatização de funções do estado, imigração por convite, etc.). No entanto, faltam três elementos na comunicação: explicar o caminho para chegar lá, as razões profundas e as bases históricas. Se incluirmos essas explicações, essas pessoas verão que têm aqui um aliado genuíno para as suas ideias serem ouvidas e desenvolvidas.
Um sinal positivo para o futuro
Apesar de tudo, há uma força evidente: as pessoas que dispensaram o seu tempo para estar em Oeiras. Houve intervenções de qualidade e livres: especialistas em cibersegurança a alertar para o “regime ditatorial” disfarçado de protecção a menores, activistas da comunicação a partilhar formas coerentes de defender ideias, e vários movimentos que estão a divulgar o pensamento libertário junto dos portugueses comuns.
Foi um encontro com pontos fracos e fortes. O pessimista vê apenas os defeitos; o optimista tenta minimizá-los. Eu notei uma dinâmica mais positiva por parte de quem está a entrar agora, mas também alguma passividade em quem já está no movimento há mais tempo. Como referiu um dos intervenientes na área da cibersegurança: estamos referenciados pelo Europol na internet. Recordo que já tivemos “toupeiras” no passado. A limpeza não foi total — ainda resta algum “lixo” por eliminar. Temos de estar atentos.
Em resumo: o encontro mostrou vontade e gente nova, mas o avanço concreto (sobretudo nas assinaturas) continua muito lento. Há potencial, mas muita incerteza quanto a saber se o partido sairá mesmo do papel.


